Jornal O Estado do Maranhão (02 jul. 2020)
O professor Franklin Douglas, pré-candidato do PSOL à Prefeitura de São Luís, afirmou em entrevista a O Estado não ter dúvidas da existência de um consórcio de candidatos apoiados pelo Palácio dos Leões nas eleições deste ano na capital - algo que vem sendo veementemente negado pelos pré-candidatos ligados ao governador Flávio Dino (PCdoB).
Segundo ele, o "colegiado" de candidatos é composto não apenas por membros da base esquerdista do governo, mas até por filiados a partidos da base de sustentação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
"É o consórcio dos Palácios, La Ravardière e dos Leões, onde o contemplado não é o povo", destacou.
Formado em Comunicação, Direito, mestre e doutor em Políticas Públicas pela UFMA, Franklin Douglas tem 47 anos e deve ser lançado em breve como o nome de seu partido, após uma mal sucedida tentativa de formação de uma frente de esquerda com PT, PSB e PCB.
"Buscamos PT e PSB para uma frente de esquerda para São Luís. Fizemos essas sinalizações, desde o segundo turno das eleições de 2018, com o voto em Haddad. Não obtivemos retorno. Ao contrário, o PT sinalizou a escolha entre as pré-candidaturas do PCdoB, Republicanos ou Solidariedade, estes dois últimos, inclusive, partidos de sustentação do governo Bolsonaro. O PSB bateu martelo em projeto próprio de candidatura", destacou. O PCB decidiu, em congresso nacional, não disputar eleições.
Douglas tem visão crítica sobre as gestões do prefeito Edivaldo Holanda Júnior (PDT), do governador Flávio Dino e do presidente Jair Bolsonaro. E diz que topou o desafio de ser candidato com a condição de que o PSOL dialogue com a cidade, não com o gueto.
Por Gilberto Leda - da Editoria de Política (com edição)
O Diretório
Municipal do PSOL aprovou no mês passado, por ampla maioria, a proposta de
lançamento e candidatura própria. Mesmo assim, o PSB, do deputado Bira do
Pindaré, ainda tenta uma articulação para a formação de uma frente de esquerda
com a participação de vocês. É possível uma reviravolta?
Permita-me,
antes, que me apresente aos leitores d´O Estado do Maranhão, visto que, se for
confirmado como candidato, talvez seja o menos conhecido dos postulantes. Sou
Franklin Douglas, 47 anos, nascido e criado em São Luís, casado, tenho dois
filhos, católico. Formado em Comunicação, Direito, mestre e doutor em Políticas
Públicas pela UFMA. Todos certificados na Capes e registrados no meu currículo
Lattes, com os diplomas! (risos). Do
movimento estudantil do Marista e do DCE/UFMA a secretário adjunto de Trabalho
e Renda do governo Jackson Lago (2007-2009), tenho feito uma opção de
militância política no campo progressista, em defesa dos setores populares e
pobres da sociedade. Pois bem, desejando que o leitor e a leitora desta
entrevista estejam com saúde, protegidos do coronavírus, passo a sua pergunta.
Buscamos PT e PSB para uma frente de esquerda para São Luís. Fizemos essas
sinalizações, desde o segundo turno das eleições de 2018, com o voto em Haddad,
passando pela campanha Lula Livre, as mobilizações a favor da Previdência
Pública, contra a Reforma Trabalhista e na oposição ao desastre que é o governo
Bolsonaro. Não obtivemos retorno. Ao contrário, o PT sinalizou a escolha entre
as pré-candidaturas do PCdoB, Republicanos ou Solidariedade, estes dois
últimos, inclusive, partidos de sustentação do governo Bolsonaro. O PSB bateu
martelo em projeto próprio de candidatura. Então, quando um não quer, dois não casam. Dessa forma, a decisão de 82% do Diretório Municipal do PSOL foi por
apresentar uma candidatura própria. Não há reviravolta nessa decisão. Inclusive,
nesta eleição sob novas regras, todos os partidos são obrigados a apresentar
seus candidatos majoritários se quiserem eleger seus vereadores. Então, a
candidatura própria do partido é uma decisão também de sua chapa proporcional. Faremos
a escolha de nossos majoritários e seguiremos o nosso caminho de propor um novo
projeto para uma nova cidade. Um São Luís sustentável, inclusiva e moderna.
O PSOL conversa com
outros partidos para uma possível aliança? Ou já decidiu que vai sozinho, sem
possibilidade de apoios?
Como
disse, tentamos. Inclusive buscamos o PCB. Mas o Congresso Nacional do PCB
orientou seus diretórios a não disputar essas eleições. Não foi possível.
Buscaremos agora é o diálogo com a cidade, ouvir a cidade, seus segmentos
organizados e as pessoas que se disponham a opinar em nossa consulta pública,
no site www.vumbora.org, onde perguntamos o que elas acreditam que precisa ser
feito em São Luís para vivermos numa cidade melhor e sermos felizes aqui. Junto
com os webnários, com a participação de técnicos e especialistas das áreas,
vamos unir as duas opiniões e construir um conjunto de propostas para
defendermos na campanha. Isso é novo. É construir de baixo para cima. Deixar a
velha política para trás. Colocar as pessoas, o povo, em protagonismo no
processo eleitoral. Isso assusta as velhas práticas políticas, e até mesmo em
segmentos do campo progressista. Vamos, então, priorizar essa aliança com o
povo, que é o maior protagonista da eleição. [*]
Muito se tem falado
sobre a existência de um “consórcio de candidatos” patrocinado pelo Palácio dos
Leões. Como você avalia esse tipo de tática para a manutenção do poder na
capital?
Há
um consórcio nessa eleição que, inclusive, mistura os partidos que apoiam o
governo Bolsonaro com os partidos que sustentam o governo Flávio Dino. O
consórcio cujos candidatos falam em suposta independência, mas estão no partido
da família Bolsonaro; e outros tentam se esquivar, mas todo o suporte político
da candidatura está alicerçado nos partidos que dão sustentação ao governo
Bolsonaro. É consórcio dos Palácios, La Ravardière e dos Leões, onde o
contemplado não é o povo. E, ainda, tem pré-candidato que quer o bônus do apoio
da máquina municipal, mas não quer o ônus da mal avaliada gestão do prefeito. O
mesmo vale para o outsider, também escondendo que está vinculado ao governo da
extrema-direita. É o velho oportunismo achando que o povo é bobo e não perceberá
essas incoerências. Política é discurso, tenho dito. E discurso é coerência,
seriedade. A insustentável leveza desse consórcio desabará nos debates, nas
redes sociais.
Existe alguma
possibilidade de composição com candidaturas vinculadas ao projeto Flávio
Dino/Edivaldo Holanda Júnior?
Seria
incoerente não termos apoiado Holanda Júnior antes e, agora, em 2020, entrarmos
numa aliança cuja gestão da cidade denunciamos e fazemos oposição. Como
explicar o caos na saúde sendo do campo do prefeito? Cujo secretário municipal de
Saúde diz uma coisa – fique em casa – e faz outra (foi passear na Litorânea),
em plena pandemia? Cujo transporte está distante dos interesses da população,
que não só não tem ônibus de qualidade para se transportar, como não tem sequer
paradas para as pessoas se protegerem da chuva!? De uma gestão municipal e
estadual que não consegue garantir segurança nos ônibus! As pessoas têm que
sair de casa já preparadas para um assalto. Igualmente com Flávio Dino. A
entrega da Alcântara aos interesses estadunidenses, de Cajueiro aos interesses
chineses, como bem disse o professor Boaventura dos Santos, em palestra aqui no
Maranhão, é buscar servir a dois senhores. Não tem como dar certo. Então, se
nos perfilamos numa frente democrática antifascista, o fazemos como óleo e
água. Pela Democracia, nos juntamos, mas não nos misturamos. Na construção de
uma cidade cuja gestão esteja voltada para sua gente, os projetos do PCdoB,
junto com os Progressistas do Dep. Fed. André Fufuca, e do DEM de Neto Evangelista
e ACM Neto, com o PDT de Edvaldo Junior, não coincidem com um novo projeto para
uma nova cidade que o PSOL irá propor nestas eleições. [*]
Está mais difícil
para a esquerda eleger seus líderes após tanta frustração com os governos Lula
e Dilma?
Não.
Ocorre que a direita que se diz liberal e democrática prefere vetar a esquerda,
por mais light que seja, e votar na extrema-direita, colocando o Estado
Democrático de Direito em risco, do que somar com a construção de uma
civilização distante dos processos históricos que se comprovaram nefastos para
o planeta, a exemplo do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália. Os erros
do Lula, por exemplo, apostando numa governabilidade conservadora, ao invés da
sustentação popular organizada, como bem avaliou Frei Betto, se repetiu com
Dilma. Diversos setores do PT, inclusive, fazem essa autocrítica, mas a maioria
do partido não deixa ela emergir. Então, pagam por esse erro. Mas algumas
políticas dos governos do PT foram significativas na inclusão de amplas
parcelas da classe trabalhadora, que Temer e Bolsonaro, de imediato,
priorizaram desmontar em seus governos. O povo já percebeu a enrascada que
entrou. Não à toa rejeita o governo. Quero ver os pré-candidatos do Bolsonaro
defendê-lo abertamente em São Luís, junto à população que perdeu seus entes
para o coronavírus, que não tem emprego, não conseguem acessar o auxílio
emergencial, os pequenos lojistas com seus empreendimentos parados... [*]
O que o PSOL tem de
diferente para apresentar aos ludovicenses, caso consiga eleger o prefeito da
cidade?
Quando
consultado se eu topava ser o nome do partido para a disputa, deixei claro.
Topo, desde que não falemos para o gueto. Dialoguemos com a cidade. Não sejamos
os profetas do caos. Mas, com equilíbrio, sensatez, portadores de uma nova
proposta para a cidade, que supere o que deu errado em 32 anos de PDT e resgate
o que deu certo. Vamos ouvir a cidade, para que esse projeto não seja do PSOL,
mas da cidade. Como disseram os nossos convidados nos webseminários que estamos
promovendo, a exemplo das pessoas com deficiência, “nada para nós, sem nós”.
Participação, transparência na gestão e nos seus recursos, prioridades
populares. Uma cidade nas mãos de nossa gente! Sustentável, inclusiva, moderna.
Eis o ponto de partida de nossas propostas e debate com a ilha rebelde. O nosso
diferencial, como diria o pensador italiano Antonio Gramsci, é buscar a
construção uma nova cultura política para a cidade.
O PSOL propôs participação
popular para a formação de uma plataforma de propostas. Seria possível atender
a tantos anseios populares em um mandato apenas?
A
plataforma é do movimento Vumbora, mais amplo que o PSOL, pois nele há também
participantes não filiados ao partido. Nela, que o leitor e a leitora poderão acessar no www.vumbora.org, recolheremos as sugestões. Queremos São Luís como uma
potência cultural e turística. Que gere empregos para sua população. Que a escola
funcione, o posto de saúde atenda de verdade. O orçamento de quase três bilhões
e meio de reais dá para fazer muita coisa. Os recursos para a amortização da
dívida, em torno de 121 milhões de reais, e pagamentos de juros e encargos, em
35 milhões, vão requerer de nós, de início, uma auditoria. Reorganizar a máquina
para torná-la eficiente, também. Mas nem todas as demandas serão possíveis de
dar conta em um único mandato. Eu seria leviano e estaria enganando a
população. Não será essa nossa postura, caso seu seja confirmado o candidato do
partido.
Qual avaliação você
faz dos oito anos de mandato do prefeito Edivaldo Holanda Júnior?
Ruim.
É um gestor que não tem gana, garra, ímpeto para administrar. Só pega no
tranco. Muitas das vezes, e vimos isso nessa pandemia, o governador foi o
prefeito da cidade. Fui o primeiro a escrever, aqui nas páginas d´O Estado, um
plano emergencial para o combate ao Covid-19. Elaboramos no movimento Vumbora
quase 20 propostas. Uma delas: recorrer a uma parceria com Wuhan, primeira
cidade chinesa onde iniciou a pandemia. Para pedir, com coirmã que São Luís é
de Wuhan, ajuda em materiais, respiradores. Temos um acordo firmado entre as
duas cidades. A Prefeitura foi incapaz de articular-se com Wuhan. Escrevi aqui
também, até inspirado no filme “O Poço”, o artigo “Distribuir máscaras à população,
óbvio!”, apontando o rumo da prevenção. A prefeitura fez muito tempo depois uma
ou outra ação. A secretaria de Cultura sequer tem sede... ainda deve produtores
culturais. E assim o é pelas demais áreas, salvo raras exceções. [*]
E dos quase seis
anos do governador Flávio Dino?
Um
governo classicamente social democrata, com sensibilidade social aguçada, mas
sem compromisso com um horizonte que supere a estrutura oligárquica que demarca
a política maranhense, de Benedito Leite a Sarney, passando por Vitorino
Freire. O que virá depois de Dino no governo? Não tivesse errado no primeiro
dia de governo, na organização do sistema de saúde, por exemplo, não estaria em
apuros agora. Não fez concurso para a saúde. Optou pelas organizações, pela
precarização dos contratos de trabalhos, condições difíceis para o trabalho dos
médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas... [*]
O PSOL faz forte
oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro. Qual sua avaliação pessoal da
atual gestão federal?
Péssima. Um governo que não consegue nomear um
ministro da Educação que preste. Não consegue fazer um ENEM. Que tem a
universidade como inimiga. Baseado em fakenews, beligerante. Incapaz de
dialogar com a sociedade. Que levou o país a um caos econômico. A agenda do Guedes
não trouxe empregos, ao contrário, ampliou o desemprego. Como avaliar bem um
governo desse? Toda frente que se proponha para defender a Democracia e
defender o impeachment desse governo, estaremos juntos. É nosso papel
histórico. A defesa do legado da luta de Marielle Franco, de Wagner Baldez. Do
posicionamento coerente de Guilherme Boulos, Marcelo Freixo. Daqueles que
sonham em mudar essa cidade. Com nossa bancada de 2 a 3 vereadores atuantes,
como Belo Horizonte, com o mandato da Juntas, do mandato coletivo em São Paulo.
Como diz o Leminski, o poeta do haykai, nesta eleição não brigarei com o
destino, o que vier, assino. Estou preparado para levar as melhores propostas
e, se assim a cidade quiser, pronto para administrar nossa querida São Luís! [*]
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[*] Em italic, trecho suprimido na versão impressa, por limite de espaço, mas disponível na íntegra versão on line, disponível aqui, mediante cadastro no site.