domingo, 2 de dezembro de 2012

O "PT de Rosemary" em três perspectivas: (III) A traição do PT, por Mino Carta


Mino Carta

Editorial

A traição do PT



Dizia um velho e caro amigo que a corrupção é igual à graxa das engrenagens: nas doses medidas põe o engenho a funcionar, quando é demais o emperra de vez. Falava com algum cinismo e muita ironia. Está claro que a corrupção é inaceitável in limine, mas, em matéria, no Brasil passamos da conta.
Permito-me outra comparação. A corrupção à brasileira é como o solo de Roma: basta cavar um pouco e descobrimos ruínas. No caso de Roma, antigos, gloriosos testemunhos de uma grande civilização. Infelizmente, o terreno da política nativa esconde outro gênero de ruínas, mostra as entranhas de uma forma de patrimonialismo elevado à enésima potência.

Assisti ao nascimento
 do Partido dos Trabalhadores ainda à sombra da ditadura. Vinha de uma ideia de Luiz Inácio da Silva, dito Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo até ser alvejado por uma chamada lei de segurança nacional. A segurança da casa-grande, obviamente.A deliberada confusão entre público e privado vem de longe na terra da casa-grande e da senzala e é doloroso verificar que, se o País cresce, o equívoco fatal se acentua. A corrupção cresce com ele. Mais doloroso ainda é que as provas da contaminação até os escalões inferiores da administração governamental confirmem o triste destino do PT. No poder, porta-se como os demais, nos quais a mazela é implacável tradição.
Era o PT uma agremiação de nítida ideo­logia esquerdista. O tempo sugeriu retoques à plataforma inicial e a perspectiva do poder, enfim ao alcance, propôs cautelas e resguardos plausíveis. Mantinha-se, porém, a lisura dos comportamentos, a limpidez das ações. E isso tudo configurava um partido autêntico, ao contrário dos nossos habituais clubes recreativos.
O PT atual perdeu a linha, no sentido mais amplo. Demoliu seu passado honrado. Abandonou-se ao vírus da corrupção, agora a corroê-lo como se dá, desde sempre com absoluta naturalidade, com aqueles que partidos nunca foram. Seu maior líder, ao se tornar simplesmente Lula, fez um bom governo, e com justiça ganhou a condição de presidente mais popular da história do Brasil. Dilma segue-lhe os passos, com personalidade e firmeza.CartaCapital apoia a presidenta, bem como apoiou Lula. Entende, no entanto, que uma intervenção profunda e enérgica se faça necessária PT adentro.
Tempo perdido deitar esperança em relação a alguma mudança positiva em relação ao principal aliado da base governista, o PMDB de Michel Temer e José Sarney. E mesmo ao PDT de Miro Teixeira, o homem da Globo, a qual sempre há de ter um representante no governo, ou nas cercanias. Quanto ao PT, seria preciso recuperar a fé e os ideais perdidos.
Cabe dizer aqui que nunca me filiei ao PT como, de resto, a partido algum. Outro excelente amigo me define como anarcossocialista. De minha parte, considero-me combatente da igualdade, influenciado pelas lições de Antonio Gramsci, donde “meu ceticismo na inteligência e meu otimismo na ação”. Na minha visão, um partido de esquerda adequado ao presente, nosso e do mundo, seria de infinda serventia para este País, e não ouso afirmar social-democrático para que não pensem tucano.
O PT não é o que prometia ser. (leia editorial completo aqui)

O "PT de Rosemary" em três perspectivas: (II) A hora da verdade para Lula e o PT, por Ricardo Kotscho



pt A hora da verdade para Lula e o PT

Caros leitores,
(...) imparcialidade não existe no jornalismo.
Todos os jornalistas e donos de meios de comunicação têm lado. Só escrevo o que penso e sinto, sem pedir licença nem querer agradar ou desagradar a ninguém.
Nem precisava dizer isso para quem acompanha meu trabalho há quase 50 anos, mas para os que estão chegando agora é bom repetir: meu lado é o do Lula, do PT e o da maioria do povo brasileiro, que venceu 500 anos de opressão e hoje vive num país melhor e mais justo.
Ricardo Kotscho
***
(...)
Demorei para escrever e dar esta resposta porque, para mim, estes últimos foram os dias mais difíceis da minha já longa carreira, posto que os fatos envolvem não só velhos amigos meus, como é do conhecimento público, mas um projeto político ao qual dediquei boa parte da minha vida.
Simplesmente, não sabia mais o que dizer. Ao mesmo tempo, não podia brigar com os fatos nem aderir à guerra de extermínio de reputações e de desmonte da imagem do ex-presidente Lula e do PT que está em curso nos últimos meses.
(...)
Sem ter o que propor ao eleitorado, após sofrer três derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, e perder até mesmo em São Paulo na última disputa municipal, o PSDB e seus aliados na mídia e em outras instituições nacionais agora partem para o vale-tudo na tentativa desesperada de eliminar por outros meios o adversário que não conseguem vencer nas urnas.
Nada disso, porém, exime o ex-presidente Lula e o PT de virem a público para dar explicações à sociedade porque não dá mais para fazer de conta que nada está acontecendo e tudo se resume a uma luta política, que é só dar tempo ao tempo.
A bonita história do partido, que foi fundamental na redemocratização do país, e a dos milhões de militantes que ajudaram a levar o PT ao poder merecem que seus líderes venham a público, não só para responder a FHC e às denúncias sobre a Operação Porto Seguro publicadas diariamente na imprensa, mas para reconhecer os erros cometidos e devolver a esperança a quem acreditou em seu projeto político original, baseado na ética e na igualdade de oportunidades para todos.
Chegou a hora da verdade para Lula e o PT.
É preciso ter a grandeza de vir a público para tratar francamente tanto do caso do mensalão como do esquema de corrupção denunciado pela Operação Porto Seguro, a partir do escritório da Presidência da República em São Paulo, pois não podemos eternamente apenas culpar os adversários pelos males que nos afligem. Isso não resolve.
Mais do que tudo, é urgente apontar novos caminhos para o futuro, algo que a oposição não consegue, até porque não há alternativas ao PT no horizonte partidário, para uma juventude que começa a desacreditar da política e precisa de referências, como eu e minha geração tivemos, na época da luta contra a ditadura.
Conquistamos a democracia e agora precisamos todos zelar por ela. (texto completo aqui)

O "PT de Rosemary" em três perspectivas: (I) Íntimo e pessoal, por Suzana Singer - ombudsman da Folha



Apesar de invadir a privacidade de Lula, foi correto revelar o tipo de relacionamento que ele tinha com a ex-assessora
Por Suzana Singer
Ombusdman da Folha de São Paulo

O noticiário político foi tomado por uma nova personagem: Rosemary Noronha, ex-assessora de Lula, indiciada pela Polícia Federal sob suspeita de corrupção passiva e tráfico de influência.

Ontem, Folha escancarou o que era antes insinuado em notas e colunas: que a influência dela vinha de um relacionamento íntimo com o ex-presidente. Sem usar a palavra "amante", o jornal conta que, nas 23 viagens internacionais em que Rosemary acompanhou Lula, a então primeira-dama Marisa Letícia nunca estava. 

Segundo a reportagem, havia um esquema especial que permitia o acesso à suíte presidencial nessas escapadas. Seria um relacionamento de 19 anos, iniciado quando ela era bancária e ele candidato derrotado à Presidência da República.

Folha invadiu a privacidade de Lula? Sim. Era necessário? Sim.

O jornalismo brasileiro costuma preservar a intimidade de seus políticos. Nunca tivemos um escândalo como o da Monica Lewinsky, a estagiária morena que quase provocou o impeachment de Bill Clinton, ou a descrição de festas dionisíacas como as promovidas por Silvio Berlusconi na Itália.

Os exemplos da história recente brasileira são quase pudicos: o bolero dos ministros Zélia e Cabral no governo Collor, o flagrante da carnavalesca sem calcinha ao lado de Itamar Franco e o filho fora do casamento de Fernando Henrique Cardoso, que só foi revelado pela Folha quando ele, já viúvo e ex-presidente, reconheceu o rapaz.

Argumenta-se que o eleitorado brasileiro, ao contrário do norte-americano, não liga para questões morais. Mas essa é uma hipótese nunca testada, porque a imprensa daqui não cobre esse tipo de assunto. Será que um candidato flagrado com outro homem em uma casa noturna gay, por exemplo, não perderia votos?

Num caso como esse, caberia discutir se a sexualidade do político tem relevância pública. Já o relacionamento Rose-Lula é diferente, porque resvala para a esfera pública.

Se o ex-presidente tiver incensado Rosemary por causa de um romance, isso teve consequências políticas. Segundo a PF, a então chefe de gabinete da Presidência em São Paulo conseguiu, entre outras coisas, colocar, em postos-chave do governo, amigos corruptos, que vendiam pareceres jurídicos favoráveis a empresários.

A decisão da Folha, de abordar o tema, está de acordo com o "Manual da Redação", que afirma: "a vida privada só tem relevância jornalística se estiver crucialmente ligada a fato de interesse ou legítima curiosidade públicos".

Só que o trabalho não terminou. Foi relevante mostrar ao leitor de onde emanava o poder de Rosemary, mas, a partir de agora, detalhes de alcova, por mais tentadores, não interessam. O importante é investigar se o ex-presidente esteve envolvido no suposto esquema criado pela sua então assessora.

Se nada for encontrado, é hora de deixar os peixes pequenos de lado -a "chinelagem", na definição da Polícia Federal- e centrar atenção nos grandes negócios investigados na Operação Porto Seguro. Como aconselha o personagem do Garganta Profunda, aos dois jornalistas, no filme sobre o Watergate: "Sigam o dinheiro". (texto na íntagra, aqui)

JOÃO FRANCISCO, MAS PODE CHAMAR DE JOAQUIM BARBOSA, ABDIAS, COSME, ZUMBI



           Franklin Douglas (*) 

Na semana em que trouxemos à memória o Dia da Consciência Negra (20 de novembro), tivemos muito o que refletir, lamentar e comemorar em torno da questão racial em nosso País e no Maranhão.
Ao contrário dos Estados Unidos, por nossas terras o racismo sempre foi camuflado, mascarado. Para enfrentá-lo, muitas lutas foram travadas, mesmo após 1888, quando o País decretou oficialmente o fim da escravidão. Por sinal, o Brasil foi a última nação do mundo a livrar-se do trabalho escravo!
Temos a maior população negra do globo terrestre, fora da África. De lá, em quatro séculos, foram trazidos mais de três milhões de negros e negras.
Enquanto no Haiti a luta popular transformou aquele país na primeira República negra do continente (revolta dos escravos de 1794), sendo o primeiro país do mundo a abolir a escravidão, segundo país das Américas a decretar sua independência, próspera economia regional ao erradicar o analfabetismo, fazer a reforma agrária e promover outras políticas públicas de cunho transformador, "sofremos" com o "fantasma haitiano" até que ele fosse aniquilado. O que, mesmo numa população de 133 mil escravos para 66 mil pessoas livres, fez com que os anos 1800 do Brasil fossem de muitas revoltas e mobilizações dos povos negros, sempre duramente reprimidas.
Mas, desde antes, sob liderança e inspiração de Zumbi dos Palmares, a vida foi de muita luta aos povos negros por sua liberdade, por sua dignidade, por seus direitos. Subverter a sociedade escravocrata em sua existência real e, posteriormente, em sua continuidade imaterial (de valores e cultura racista), foi... é... e, sob a lógica do sistema do capital, continuará sendo uma luta permanente.
Essa pseudo-democracia racial, que os "donos do poder" tentam ideologicamente fazer prevalecer, não se sustenta diante de dados como, por exemplo, o da violência no Brasil. Para se ter ideia, de 1979 a 2003, 550 mil brasileiros foram mortos por armas de fogo: 74,5% deles eram negros.
A luta contra a escravidão, pela liberdade, pela igualdade, se foi inicialmente uma bandeira trazida da difícil realidade vivida pelos povos negros, hoje é uma luta de todas e todos que acreditam ser possível construir um outro País, um outro Maranhão.
Foi este sonho que nutriu a trajetória de vida de João Francisco. Engajado na luta pela terra, nas Ligas Camponesas, exilado em Moscou quando perdeu sua liberdade política no período da Ditadura Militar, lutador da democracia na volta do exílio, fundador do Centro de Cultura Negra (CCN) e de seu único partido, o PDT de Brizola, Neiva Moreira e Jackson Lago, primeiro Secretário de Estado de Igualdade Racial (governo Jackson Lago, 2007 a 2009), João Francisco deixou esta vida - exatamente no dia 20 de novembro! - para se transformar em mais um ícone da luta popular maranhense.
De origem humilde, pobre, a liderança engajada, comprometida com seu povo, João Francisco junta-se aos exemplos deixados por Negro Cosme e sua balaiada, João Cândido e sua luta contra a chibata, Abdias Nascimento e Milton Santos no pensamento crítico de combate ao racismo, à postura revolucionária de Maria Aragão, à militância combativa de Magno Cruz.
Nestes tempos de ilusória ascensão social de uma dita "nova classe média", onde nos últimos 10 anos a renda do negro cresceu 123% (cinco vezes mais do que o restante da população) e 40 milhões de pessoas ascenderam socialmente, das quais 75% são negros, ficam os exemplos de todos esses que lutaram em vida por uma sociedade sem desigualdades, onde não basta a ascensão econômica para subverter o racismo. Vai além disso!
O exemplo de Joaquim Barbosa, empossado, no dia 23 de novembro, como primeiro negro a presidir a mais alta corte do País, o STF (Supremo Tribunal Federal), é isso: para além do estudo, da ascensão econômica, da ocupação de espaços públicos por seus méritos próprios, fica o tapa de luvas de seu discurso na lógica de nossas elites, tão acostumadas ao tratamento privilegiado: "Nem todos os brasileiros são tratados com igual consideração (...) Há um grande déficit de Justiça entre nós".
Déficit de justiça esse que só se supera pela luta dos oprimidos, negros e brancos, homens e mulheres, por seus direitos, pela construção de um Brasil e um Maranhão justos, democráticos, sem trabalho escravo, sem racismos.
De Zumbi a João Francisco, passando por Joaquim, eis a mensagem deixada a todos nós neste histórico e fortemente simbólico Dia da Consciência Negra do ano de 2012! 



(*) Franklin Douglas - jornalista, professor e doutorando em Políticas Públicas (UFMA), escreve para o Jornal Pequeno aos domingos,  quinzenalmente. Artigo publicado no Jornal Pequeno (edição 02/12/2012, página 16)


sábado, 1 de dezembro de 2012

Lawrence Ferlinghetti: TEMPOS RADICAIS PEDEM RESPOSTAS RADICAIS

"Não fique sentado aí, estúpido.
O mundo está em chamas"


"Precisamos lutar pelo futuro", diz o poeta da contracultura Lawrence Ferlinghetti



CASSIANO ELEK MACHADO

(...) Aos 93 anos, o poeta norte-americano acaba de publicar um volume de poesia com este mote, o livro "Time of Useful Consciousness" (New Directions), lançado há 20 dias nos Estados Unidos.
Sua vasta e contundente obra, que lhe rendeu prateleiras de prêmios, também ganha espaço no Brasil. A editora L&PM, que já havia lançado a principal obra poética de Ferlinghetti, "Um Parque de Diversões da Cabeça" ("A Coney Island of the Mind", 1958), publica na próxima quinzena um dos raros livros de prosa do autor.
O breve romance "Amor nos Tempos de Fúria", de 1988, narra uma inflamável história de amor entre uma artista e um banqueiro, ambientado na Paris de 1968.
Em entrevista à Folha, Ferlinghetti falou sobre esta obra, comentou seu novo trabalho poético e conclamou os leitores a lutarem por questões sociais: "Não fique aí sentado, seu estúpido!".
*
Folha - O seu livro "Amor nos Tempos de Fúria" é dedicado a Fernando Pessoa. Você o fez para homenagear sua mãe, que era de origem portuguesa?

Lawrence Ferlinghetti - A família de minha mãe era mesmo portuguesa, eram sefarditas de uma cidade chamada Monsanto, em Portugal. Mas não cheguei a ter contato com este passado. O livro não homenageia a minha mãe, mas sim a Pessoa. Eu me inspirei no texto dele "O Banqueiro Anarquista". Peguei deste texto toda a ideia central para meu livro.


O sr. se identifica com as ideias do "banqueiro", que tem o sobrenome Mendes, assim como sua família?
É curioso, mas o termo anarquismo é usado hoje na imprensa americana como sinônimo de terrorismo. É uma completa ignorância à respeito da tradição anarquista.
Nos anos 50 todos éramos anarquistas. Mas nos anos 50 a população mundial era a metade da atual. Quando havia menos gente era possível ser um deles. Mas quando a população dobra algum nível de planificação da economia mundial se faz necessário.
Hoje eu me descreveria como socialista humanitário.


O sr. já disse que normalmente as pessoas costumam ficar mais conservadoras quando envelhecem e que com o sr. foi o oposto. Por que o sr. acredita que esteja ficando cada vez mais radical?
A pressão do tempo é que dita isso. Tempos radicais pedem respostas radicais. O mundo está num péssimo estado. Lembro que tive uma conversa com Günther Grass em 1975. Ele disse que acreditava que, no final do século 21, as nações tal como as conhecemos não existiriam mais e o mundo estaria coberto de hordas étnicas lutando por comida e abrigo. É uma visão terrível do futuro, mas não é impossível diante do que vivemos. Precisamos lutar.


O sr. se considera um ativista?
Quando alguém escreve para valer é, em essência, um ativista. É importante agir. Não dá para ficar sentado em casa.

Não fique sentado aí, seu estúpido, o mundo está em chamas (risos).


"Time of Useful Consciousness", título de seu novo livro, é um termo aeronáutico que trata do tempo que alguém tem num avião entre o momento em que fica sem oxigênio e a morte. É uma metáfora para a situação do ser humano?
É exatamente isso. Chegamos a um ponto de inflexão em termos de ecologia. Os maiores estudiosos do clima estão discutindo atualmente se a raça humana vai sobreviver a este século. Ou respiramos e agimos agora ou acabaremos com tudo muito em breve.


O sr. é conhecido por sua poesia, não pela prosa, e em ambas usa linguagens experimentais. Por que no romance que está saindo aqui o sr. usou um estilo mais convencional?
Quando escrevi "Her" [1960], meu romance anterior, estava interessado em trabalhar o fluxo de consciência. Estava influenciado por obras inovadoras como "Nadja", de André Breton. "Amor nos Tempos de Fúria" foi escrito num momento diferente. Eu tinha voltado a morar em Paris, eram os anos 1980 e o Centro Georges Pompidou tinha digitalizado todos os jornais de 1968. Li tudo e achei que deveria ambientar um romance neste momento.


O sr. disse que releu o livro para esta entrevista. Gostou do que leu?
Sim, embora eu prefira o estilo de "Her". O deste é mesmo mais convencional. É quase uma reportagem desta época, com a graça de usar como protagonista o personagem de Fernando Pessoa.


Há um mês o sr. deu uma de "Banqueiro Anarquista" e recusou um prêmio de € 50 mil por razões ideológicas, não?
Recusei o prêmio do PEN Club da Hungria depois de descobrir que parte do dinheiro vinha do governo daquele país, que hoje é um dos mais autoritários da Europa e cujo primeiro-ministro andou homenageando um nazista. Foi difícil negar o prêmio, porque € 50 mil é mais do que eu ganhei com poesia durante toda a minha vida, mas não tive escolha.


Mas "A Coney Island of the Mind" é considerado o livro mais vendido de um poeta vivo americano. Já vendeu um milhão de cópias...
Deve ser, mas em nenhum ano ganhei mais do que US$ 10 mil de royalties.


O sr. ainda vai à livraria que fundou, a City Lights?
Costumo dar um pulo lá de vez em quando, mas me aposentei do trabalho mais ativo. Você sabe, tenho 93 anos. Coloquei um pessoal mais jovem para tocar o negócio. Prefiro me dedicar à pintura e à poesia. No livro novo junto as duas, já que na capa há uma pintura minha.


A capa mostra um relógio com dois ponteiros quase sobrepostos...
É o tempo que está acabando. É um livro um pouco sombrio, mas, no final do poema, depois de escrever sobre os terríveis prognósticos para o planeta, eu escrevo "Chega, chega". Eu tento encontrar alguma esperança no futuro. Nas últimas páginas há esta grande virada. Não queria terminar com um tom de desespero. Por isso é que, no final do livro, eu cito Walt Whitman, o eterno otimista.


O sr. costuma ser chamado de "o último beat", mas já li declarações suas dizendo que não gosta do epíteto.
Eu me associei aos beats mais por ter sido editor deles. Mas minha poética é diferente. Minha poesia foi influenciada por franceses como Apollinaire, Jacques Prévert e outros voltados para a cultura europeia. Os beats não iam por esta linha. Havia outra diferença. Sou heterossexual. Metade dos beats era gay.

Quais as principais diferenças em termos poéticos?
A poesia de Allen Ginsberg era baseada na ideia do "primeiro pensamento, melhor pensamento", um conceito que ele pegou do budismo. Jack Kerouac acreditava nisso. Você escreve a primeira coisa que aparece na sua cabeça, sem censura.


É um modo profundo e verdadeiro de conceber poesia. O que você escreve primeiro é muito frequentemente melhor do que o que consegue depois de burilar o texto.

Mas isso é mais verdadeiro se você é Ginsberg, um gênio com a mente original. Mas se você ensina isso para centenas de estudantes de poesia, como Kerouac fez numa escola em Colorado, não vai funcionar. As pessoas têm mentes comuns e produzirão alqueires de poesia chata. Ele pregava que as pessoas deveriam escrever sobre a primeira coisa que vissem logo que acordassem. Isso pode ser lindo no olhar de Ginsberg, mas não funciona para todos. Imagine: "Acordei. Vi minha escova de dentes. Ela caiu no chão. Abaixei para pegá-la", fim do poema (risos).