quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Artigo Flávio Farias - Porta-estandarte da oligarquia equinocial


Flávio Farias (*)
A tirania é implacável e cruel porque é covarde e débil. (Romain Rolland)
A Beira-Mar, área urbana primordial de São Luís do Maranhão, foi estrategicamente escolhida para sediar agitados comitês dos principais candidatos nas eleições municipais desta cidade histórica, patrimônio da humanidade. Neste espaço geopolítico, fica o atual Beco da Baronesa, antes denominado Beco da Bosta (nada contra quem mora ou morou por ali, aos quais se soma o autor deste artigo), por servir outrora de passagem fétida aos excrementos da nobreza, transportados e lançados ao mar por escravos.
Por ironia do destino (por felicidade), ao desembocar na Rua Parque 15 de Novembro, o Beco da Bosta (da Baronesa) deveria simbolizar tanto a superação republicana da era do escravismo, quanto uma sustentável, racional e democrática produção do espaço físico, do espaço mental e do espaço social, respectivamente. No meio destes espaços, cabe uma providência lógica e elementar de saúde pública na metrópole do estado cujas águas correm brigando, ao comemorar os seus 400 anos: o abastecimento de água potável e o tratamento de esgotos.
O que abunda neste domínio é uma chuva de promessas de que esta reivindicação será prontamente atendida, junto com tantas outras demandas de serviços públicos – não menos importantes, como transporte, saúde e educação – que se perderam ao longo desses quatro séculos. Acredite quem quiser, para nunca mais se repetir a tirania do abuso do poder confiado (Marquês de Sade), perpetrado por eleitos pelo povo, confortavelmente remunerados, alojados nas cercanias da área histórica do Reviver; em última instância, centralizados na privatização mercantil (inclusive das águas) que acentua a privação de necessidades sociais.
As eleições periódicas tornam-se uma revivescência de uma reificação (coisificação das relações entre os homens) na qual os representados têm seus quereres qualitativos ocultados por seus quereres quantitativos, enquanto que o verdadeiro ser social dos representantes é ocultado por intermédio de publicidade, número, maquiagem e curriculum vitae retocado.
Em que medida o voto cada vez mais limpo ocultaria a campanha cada vez mais suja? Em que proporção a apropriação malufista ocultaria a representação política apropriada? Em que nível alavancar candidatos por meio de parentes, líderes e consortes ocultaria a preponderância de grupelhos no poder? Até que ponto a carretilha da frase pronta ocultaria a camarilha e a quadrilha da oligarquia aprontada? Em que alcance a verborreia ocultaria a falta de propostas administrativas consistentes?

Caso revivesse no jogo local das representações políticas, o rebelde Marquês de Sade incitaria seus compatriotas da França Equinocial, ora quatrocentona: franceses, mais um esforço para ser republicano! Também, almejaria que uma desconfiança necessária não abandonasse jamais os ludovicenses (naturalidade que, aliás, se refere a Luís XII, o “Pai do Povo”, e não a Luís IV, o “Rei Sol”), sobretudo em momentos de eleição. Enfim, proclamaria que o rei está nu aos oprimidos que provisoriamente dão vivas ao seu emprego precário de porta estandarte da oligarquia equinocial, elevada sadicamente acima do proletariado humilhado de sol a sol, mas sempre rebelde, na sua luta por um lugar ao sol.


Para além do sadismo renitente, o jogo das representações em tela permanece carente de reforma política e, em geral, avesso a grandes mudanças sociais e históricas. Quando se aceleram os acontecimentos em decorrência de fenômenos classistas, erigem-se fetichismos atinentes ao ser e à consciência social nos quais o vigor do comprometimento, do conchavo e da rebeldia cintilantes como o sol tropical oculta o rigor da necessária atividade radical, crítica e transformadora.
 
Certamente, a superação da reificação passa pela eficaz combinação de otimismo da vontade com pessimismo da razão (Romain Rolland). Para ver que, na realidade, marcados pela herança da ditadura, o sistema político-eleitoral e a mídia controlada pelos opressores reproduzem ilusões consensuais e mistificações, como a de ocultar a rebeldia classista sob a denominação geográfico-genérica de Ilha Rebelde (dentre outros atributos bucólicos, sexuais e musicais), que se torna uma reificação própria à ideologia dominante. Como se sabe, no passado, a rebeldia da oligarquia equinocial mirou impedir a ruptura com o colonialismo português, o fim da escravidão e a superação do Império; hoje (e sempre), resta rebelde contra a emancipação dos explorados, dominados e humilhados; por isso, a classe opressora representa seu interesse como o interesse comum de todos os membros da sociedade, como constatou o jovem Marx.
*Doutor em Economia (Universidade de Paris XIII). Professor da UFMA, atuando nos Programas de Pós-Graduação em Políticas Públicas e em Desenvolvimento Socioeconômico.

3 comentários:

Juliana Teixeira disse...

Faltou um pedaço do artigo, a última página do arquivo enviado:
"Caso revivesse no jogo local das representações políticas, o rebelde Marquês de Sade incitaria seus compatriotas da França Equinocial, ora quatrocentona: franceses, mais um esforço para ser republicano! Também, almejaria que uma desconfiança necessária não abandonasse jamais os ludovicenses (naturalidade que, aliás, se refere a Luís XII, o “Pai do Povo”, e não a Luís IV, o “Rei Sol”), sobretudo em momentos de eleição. Enfim, proclamaria que o rei está nu aos oprimidos que provisoriamente dão vivas ao seu emprego precário de porta estandarte da oligarquia equinocial, elevada sadicamente acima do proletariado humilhado de sol a sol, mas sempre rebelde, na sua luta por um lugar ao sol.
Para além do sadismo renitente, o jogo das representações em tela permanece carente de reforma política e, em geral, avesso a grandes mudanças sociais e históricas. Quando se aceleram os acontecimentos em decorrência de fenômenos classistas, erigem-se fetichismos atinentes ao ser e à consciência social nos quais o vigor do comprometimento, do conchavo e da rebeldia cintilantes como o sol tropical oculta o rigor da necessária atividade radical, crítica e transformadora.
Certamente, a superação da reificação passa pela eficaz combinação de otimismo da vontade com pessimismo da razão (Romain Rolland). Para ver que, na realidade, marcados pela herança da ditadura, o sistema político-eleitoral e a mídia controlada pelos opressores reproduzem ilusões consensuais e mistificações, como a de ocultar a rebeldia classista sob a denominação geográfico-genérica de Ilha Rebelde (dentre outros atributos bucólicos, sexuais e musicais), que se torna uma reificação própria à ideologia dominante. Como se sabe, no passado, a rebeldia da oligarquia equinocial mirou impedir a ruptura com o colonialismo português, o fim da escravidão e a superação do Império; hoje (e sempre), resta rebelde contra a emancipação dos explorados, dominados e humilhados; por isso, a classe opressora representa seu interesse como o interesse comum de todos os membros da sociedade, como constatou o jovem Marx." (Flávio Farias)

Francisco Veras (ex-aluno do curso de Economia) disse...

Do Beco da Bosta a Marx. Só mesmo Flávio Farias. Um artigo acima da mediocridade que inunda diariamente blogs e jornais tupiniquins. Valeu Flavio!

coletivo da redação disse...

Já ok, Juliana. Valeu pela correção.